segunda-feira, 30 de novembro de 2009

E de repente, nada mais sentia...

Seu rosto não era mais tão convidativo, não me deixava com as pernas bambas, nem com as mãos trêmulas e frias, como se meu sangue não circulasse mais...
De repente, tudo o que eu via era um rosto estranho, duro, severo, capaz de me fazer ir embora definitivamente.
Seu perfume não era mais o que eu queria sentir... Meus ouvidos não suplicavam por aquela voz – tão doce e irresistível – que há alguns segundos atrás era a única coisa que me faria realmente bem.
Fitava-o como se procurasse alguma resposta... Alguma razão para aquela mistura de sensações.
Sua face não era mais aquela que me acalmava, que fazia com que o mundo parasse ao meu redor... Agora, sua face me amedrontava... Um certo receio de me aproximar, como se algo pudesse realmente me fazer mal ou me machucar de alguma forma... Uma sensação estranha, um sexto sentido fora do comum...
Não queria mais vê-lo... Não sentia mais a sua falta... Não o amava mais.
Tantas lágrimas... Talvez ele não merecesse nem, sequer, uma gota. Ou melhor, talvez aquele estranho que estava diante de mim não merecesse.
O rosto carinhoso e convidativo merecia. Ele me fez rir, me fez sentir aquele friozinho na barriga... Me fez viver aquela história que eu sempre quis que fosse minha, e foi.
Hoje, só ficaram lembranças de um tempo bom, com uma pessoa maravilhosa que não existe mais...
Ele me fez a garota mais feliz do mundo...
Não faz mais.

Jéssica Marcela.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Prazer de Morrer



São Paulo, 23 de Novembro de 2009
Poema-Piada / Temática: Morte

Em um caixão de madeira estrangeira,
Revestido em seda da melhor qualidade, me repousava.

Conseguia sentir o gosto do meu próprio sangue coagulando,
Que delícia!
Um gosto delirante.

Conseguia sentir o calor das pessoas ao meu redor,
Ouvia caindo no chão, lágrima quentes e salgadas,
Que sensação agradável!
Me sentia acomodado com a atenção das pessoas.

Sentia meus pulsos no calor das velas,
Até o cheiro de jasmim da coroa de flores eu apreciava naquela sala.
Aquele cheiro de carne;
Carne que começava a se decompor,
Me deixava encantado.

Sentia ao meu lado o perfume,
O perfume de todos aqueles falsos,
Com lágrimas teatrais,
Que nunca em mim haviam reparado;
E que agora encenam sobre meu corpo.

Após suportar todos aqueles atores,
Comecei a me sentir distante,
Sozinho.
Foi assim que percebi que a vida só começaria,
Para mim,
Agora.

Cesar A. Brito Cannizzaro

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vai ficar...





Talvez seja o último adeus
Talvez nossas vidas nunca mais se cruzem
Talvez a imagem de seu rosto, agora,
Seja a última que terei
Talvez a vida continue
E nem do rosto lembrarei...

Mas a lembrança
Ah, essa vai ficar
Risos, choros
Amores intensos
Que um dia tiveram fim
Assim como os rostos
Que serão esquecidos

Mas a lembrança
Ah, essa vai ficar
Amizades que, por mais que o tempo desgaste,
Sempre existirão
Porque foram intensas,
Intensas enquanto duraram
E nem uma vida inteira
Seria capaz de apagar

Talvez seja o último adeus,
Mas a lembrança
Ah, essa vai ficar...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Olavo


Para meu avô materno, Olavo.

Oi Vô. Tudo bem aí no lado bom da vida?! Vim expressar-lhe sentimentos meus.

Enquanto vivo a gente nunca brigou e sempre nos demos bem. O senhor morreu quando eu tinha 10, 11 anos, eu era uma criança, não tinha noção do tamanho da importância que teve essa morte. Passado alguns anos cai a ficha e eu choro pela sua perda. Choro pela saudade que tenho do senhor.

Lembro quando o senhor quebrou o braço jogando bola comigo, lembro quando o senhor dava halls pro nosso cachorro da época, lembro quando o senhor falava do espirro da minha vó que derrubava o cachorro que tava na esquina fazendo xixi no poste, lembro da gente montando as luzinhas de natal no nosso quintal, lembro de quando a gente brincava de forca ou de jogo da velha e você dizia que era o jogo da minha vó (velha), lembro das suas piadas, as mesmas piadas, e que eu sempre ria como se tivesse sido a primeira vez que havia ouvido, lembro de quando o senhor me deu um atari, lembro de quando a gente ia pra casa de Caconde (interior de Minas) e andavamos de bicicleta no quintal da casa e quando a gente ia nas fazendas vizinhas pegar laranja no pé ou ver as vacas e os bois.

Lembro quando o senhor adoeceu, lembro que de começo eram só uns surtos psicológicos, lembro quando a doença começou a ficar pior e o senhor começou a perder os movimentos básicos e caiu da escada, lembro que fui eu que vi o galo e o roxo na sua cabeça desse dia, lembro que, por conta disso, a gente teve que se mudar pra uma casa térrea ou um apartamento porque o senhor não conseguia mais andar.

Lembro quando o senhor teve que ser internado porque a situação estava muito difícil pra gente continuar a te deixar em casa, lembro que o senhor começou a fazer quimioterapia e vários exames. Lembro que o senhor teve que fazer uma cirurgia na cabeça e nesse dia minha vó estava em casa ouvindo a rádio que o Padre Marcelo apresentava, rezando. E a força foi tanta que o Padre conversou com ela. Lembro até das palavras dele:
"Tenho uma amiga Senhor, ela está com o marido muito mal no hospital agora, no meio de uma cirurgia séria, Senhor. Sim, Senhor. Claro, Senhor! Minha amiga, ele tá bem. Seu marido está bem e vai ficar bem. Ele vai sobreviver a essa cirurgia!"

Lembro que minha mãe evitava levar a gente no hospital para vê-lo por quê o senhor não lembrava de nada, nem de ninguém, não falava e não respondia a nenhum estímulo. E lembro que um dia eu fui visitá-lo no hospital. Lembro do hall do hospital, do corredor que levava até o seu quarto e lembro do seu quarto. Lembro que entrei no quarto, vi minha vó sentada num sofá acinzentado pequeno e baixo que ficava em baixo
da janela e ao lado do banheiro que era logo em frente a porta de entrada do quarto, vi a TV ligada na novela das 20h e minha tia embaixo dela, meu pai estava andando de lado a lado, as janelas estavam fechadas, meia luz acesa, aquela luz de brilho alaranjado. Não me lembro aonde estava o meu irmão, acho que meu irmão não tinha ido nesse dia.

Minha mãe disse: "Fala 'oi' pro vovô, filha". Era notável o tom de tristeza na voz da minha mãe. Eu disse 'oi'. O 'oi' mais empolgado que já dei na vida. Mesmo sendo criança, eu sabia o que tava acontecendo, só não entendia. Não entendia porque as vezes via minha vó ou minha tia chorando, não entendia porque minha mãe chegava tarde em casa, não entendia porque quando ia à casa da minha avó, meu avô não
estava e não entendia o motivo dele estar no hospital.

Com um 'oi' repleto de alegria infantil, cheio de saudade e um carinho na mão, eu olhei para você, olhei para seus olhos. Com os olhos arregalados, a boca aberta, testa franzida, sem cabelo, você retribui o olhar. Mas, vi uma expressão estranha, desconhecida. Senti um olhar distante e cheio de dúvidas. Quem é essa criança? Do que ela me chamou!? Vô!? O que é vô!? Quem são essas pessoas?! Da onde elas surgiram!?
O que eu to fazendo aqui!? O que é aqui!? QUEM SÃO VOCES?!? - O senhor só murmurava. E dormi com o seu murmúrio. Fui acordar em casa.

Essa é minha última imagem sua porque não fui no velório e nem no enterro. E essa foi a decisão da minha mãe, não levar nem amim nem meu irmão. Não sei se concordo com isso. Mas, ainda tenho suas fotos e lembranças na minha cabeça. Acho que isso me basta para seguir em frente e feliz. Saber que o senhor existiu, que fez minha felicidade enquanto criança, que me fez rir, me conforta. Mas nada impede a imaginação de como seria você aqui agora! Quando fiz meus 15 anos, meu primeiro namorado, quando me mudei de escola pela primeira vez, quando me mudei de casa, a morte dos nossos cachorros que o senhor tanto gostava, meu primeiro amor, meu piercing, meu show com minha banda, meus empregos, meu primeiro show, quando passei de ano sem nenhuma recuperação, quando entrei no ensino médio, quando fiz 18 anos, quando passei em duas faculdades, quando escolhi o que quero pra minha vida profissional! Queria ver como o senhor estaria agora! Será que o senhor estaria fazendo ginástica junto com a minha vó? Ou será que o senhor estaria trabalhando como sempre!?? O senhor nunca parava quieto! Como o senhor estaria hoje fisicamente!? Magrinho como sempre? Careca? Cabelos brancos?! De bengala!? Será que estaria fumando ainda?! Só imaginação.

E dessas imaginações eu vou vivendo e me conformando, infelizmente. Queria ter podido parar o tempo em todos os momentos em que estávamos juntos, só para poder ter mais lembranças suas a cada dia que passasse. São sete anos. Sete anos de saudade e 18 anos de amor!



Eu te amo muito, Vô!
(15/11/2009)



Luana A.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mais uma carta de amor


Lapa, 4 de junho de 2009

Às 21:18 de hoje.
- Alô?
- Não diga nada...
Eu não sabia se ficava quieta e desistia de tudo, ou tentava estabelecer a nossa reconciliação.
Demorei demais pra pensar...
- Ótimo. Só quero te dizer que você sempre será a Minha Moreninha, haja o que houver. Parece que nós não fomos feitos pra ficar juntos...
Uma pausa... Ele chorava.
- E também quero que saiba que... – ele deu uma pausa e eu continuei.
- Você sempre será a minha mais linda história de amor. Você é e sempre será o meu primeiro amor. Isso não pode mudar. Isso ninguém vai mudar. Passe o tempo que for, lem...
- Adeus, Moreninha.
Desligou.

O que eu ia dizer?

“Passe o tempo que for, lembre-se das nossas músicas, das nossas brigas, das nossas reconciliações e da nossa amizade com muito carinho. Tenha consciência de que tudo valeu a pena. Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Ainda te amo; não do jeito que você gostaria, mas amo à minha maneira, e amarei pro resto da minha vida. Obrigada por ter participado dela.”

Mas ele nunca vai saber...

Tati Carlos

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Agora

Você já chegou a ser alguém, íntimo, mas você é tão suscetível que me cansa...
Você sempre me diz pra ser forte, como agir, o que falar, o que usar, como fazer, por que falar? Você é fraco, você é tão incerto que me cansa...
Você que se acha um projeto autêntico de si mesmo, isso me cansa...
Você é tolo,
Você é uma cópia do seu irreal...
E isso me cansa,
E o nosso abismo foi criado.

Ariana Barone

"Pernas e cabeças pela sala."

domingo, 1 de novembro de 2009

Apresentação


Caros leitores,
Nós, os poetas, somos alunos do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Pré-Médico, São Paulo.
Após algumas aulas de literatura, redação e gramática, recebemos alguns elogios e chegamos à conclusão de que existem algumas pessoas na nossa sala que têm um lindo dom para escrever textos ou poemas sobre qualquer assunto.
Com isso, resolvemos criar um blog e postar nossos melhores textos e poemas. Estes são feitos em sala de aula, em casa, mas independentemente do lugar, são nossos textos. Eles serão assinados por seus respectivos autores.
Obrigada desde já pela colaboração.
Beijos e abraços,
Os Poetas Enrustidos
Para qualquer dúvida: os.poetas.enrustidos@gmail.com