segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Imprevisivelmente



E depois de discussões não resolvidas, insultos ditos, tapas na cara, afastamentos forçados, distância, pais, palavras, músicas. Depois de momentos marcantes, inesquecíveis. E depois de muito tempo, elas se reencontram. Encontram o olhar uma na outra, encontram a saudade, encontram o amor enterrado por não saberem cuidar.

Se esbarram na praça, distraídas. Se xingam, resmungam e se olham. Se olham. Nesse momento, o mundo pára, gira, perde voz, perde tempo, perde paisagem, perde pessoas, perde o sol. Ficam só elas num oásis branco, nulo, incógnito e trêmulo. Só elas.
Seus olhares se batem no ar como ondas magnéticas de calor, elas tremem, amolecem, sentem calafrios, respiram fundo, piscam. E a realidade volta. Se encontram. Estão na praça onde se conheceram, onde deram o primeiro beijo, primeira briga e a separação traumática. Se encontram. Anos depois na praça onde se trombaram, onde se xingaram, resmugaram e trocaram sua segunda troca de olhar que as fizeram se apaixonar novamente.

Não precisaram de muitas palavras para se reapresentarem. Conversaram, trocaram novidades, a mãe de uma tinha morrido, o pai da outra também, uma ganhou um pastor alemão, a outra ganhou um gato siamês. As coincidências eram assustadoras, pois fora assim que elas se descobriram uma na outra. No oposto encontraram um encosto. No oposto encontraram o equilibrio.

Elas continuavam lindas, continuavam esplendorosas. Um brilho diferente em cada olhar, um corpo diferente em cada uma, os mesmos cabelos compridos, os mesmos toques suaves, mesmas vozes silenciadoras e intimidadoras. Iguais, mas diferentes.

Certo momento, o silêncio toma conta da boca delas. Não se fala nada, não se expressa nada. E cria o clima. O mesmo clima que faz o coração bater mais rápido e você respirar ofegante. E uma delas não quer deixar esse clima passar, tomou sua atitude. Olhou bem e se aproximou. E nesse momento um vento bateu e trouxe à sua memoria o mesmo perfume da adolescência. Tal perfume que a fez ter sonhos impossíveis.
Aproveitando esse perfume ela põe sua mão sob o queixo de seu sonho encarnado e tenta fazer com que seu olhar chegue ao dela e que a faça permitir esse beijo tão aguardado. Ela se aproxima de seu rosto, olha em seus olhos, acaricia com o nariz sua buchecha, pega sua mão e sem dizer nada, chega perto de seus lábios. Lábios vermelhos, carnudos, com cheiro de bala.
-Pára!!- Um ar de dúvida paira no ar- Não quero.- O olhar se desvia para o chão e ela se distancia.
-Por que??- Sentindo o perfume novamente, ela se decepciona e pergunta conformadamente triste.
Ela não responde.
Ela se aproxima de novo, pega em suas suaves e macias mãos e pergunta: -Por que, anjo?!
Ela só olha.
Seu nariz encosta no dela novamente e assim ela pretende ficar.
-Não vou fazer isso. Não vou cometer de novo o mesmo erro. A gente não deveria ter nos encontrado. Vai embora!
-Não vou embora. Disse pra você que nunca iria embora da sua vida. E não vou embora, eu voltei e estou aqui!
-Mas, nunca pedi pra que você ficasse sempre na minha vida.
Um olhar assustado e indignado surge: -Eu quero você. Quero de novo você! Quero seu gosto, quero seu perfume, quero seu abraço, suas mãos, quero seu nariz, seus lábios com gosto de bala, quero seu corpo, quero ser seu ar, quero ser seu oposto, seu encosto, quero de novo ser seu coração, quero de novo ter seu coração. Quero você. Quero seu beijo!
Um olhar assustado e indignado surge: -Você não aprende nunca. A gente não pode ficar juntas. Devemos ter nossas vidas, separadamente.
Ela mantém a concentração, mantém seu nariz próximo o bastante do rosto, onde possa sentir seu hálito doce e sua respiração nervosa!
Ela tenta transmitir frieza e indiferença no meio do clima que se forma. A praça começa a ficar vazia, o sol se põe, os pássaros cantam e a noite começa a chegar.
-Não vou desistir de você, como nunca desisti.- E nesse momento suas mãos passam a acariciar o rosto dela.
-Vai embo...- E a frase é interrompida com um beijo roubado.

Ela sabia que o que ela mais queria era o beijo. Quer mais que o seu oposto pra te conhecer melhor que você?
E o beijo foi roubado ou foi dado? O beijo aconteceu. O beijo mais intenso, mais forte, mais sincero. Um beijo molhado, devagar, cheio de saudade. Um beijo com desejo, com tesão, com amor. Um beijo paradoxalmente selvagem. Um beijo que veio à memória das duas seus planos do passado, suas risadas do passado, suas horas de amor na cama. Os momentos ruins foram apagados. O beijo curou o passado. O beijo mostrou
um novo presente. O beijo possibilitou um novo futuro.
E novamente o mundo gira e dá à elas a possibilidade de pensar que o beijo está durando uma eternidade. E ele é interrompido por um tapa. Um tapa. Um olhar. Uma frase. Eu te amo. E o beijo novamente.

O tapa serviu de aviso, como quem diz: Não suma mais, não quero que você vá embora.
E o beijo serviu para mostrar que o amor não está enterrado e que elas souberam cuidar dele. Da maneira delas.
Da mesma forma que ele aparece, o amor renasce. Imprevisívelmente.


(28/12/09)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Só Com Você.



São Paulo, 11 de janeiro de 2010
16:34




Só Com Você.




Uma Fogueira na beira da praia,
porque não,(...)
um violão a liberar seu som junto ao vento?
Quem sabe,(...)
Uma taça de vinho malbec para acompanhar seu instinto.
Deitados na areia fina com um Luar digno de Respieto,
sentindo sua pele,
seu calor,
sua vida;
E a única Coisa que te Pediria seria um beijo.
Mas não qualquer beijo,
Só aceitaria o seu beijo;
Pois só ele me faz feliz,
Pois só ele me faz perceber o que verdadeiramente sinto por alguém,
Só o seu beijo,
Com esses lábios carnudos e não muito Secos me deixam inebriado.
Só Gostaria de estar ao seu lado,
seja na Areia,
na grama,
na cama,
ou no fundo de um quintal.
Estando com Você, Tudo vale a pena.!



César Cannizzaro.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Cicatrizes




A vida nunca é como queremos. Não tem outro jeito... Podemos tentar ao máximo chegar perto da felicidade, mas nunca por completo. Sempre vai existir aquele buraco que corroe as cicatrizes que restaram.
Às vezes me pego perdida em meio às lembranças que eu imaginava estarem esquecidas. Esquecidas, nem tanto, mas acreditava que estavam bem lacradas. Por um simples instante, acabo ficando presa sem encontrar a saída... Angustiada.
Essa sensação de estar em um ciclo vicioso é horrível. Por mais que tentar renovar ou mudar um simples pedacinho, nada muda. Continua tudo do mesmo jeito que estava antes. E com o passar do tempo, vamos descobrindo mais coisas, mais problemas vão surgindo e acabamos nos encontrando com o inimaginável...
Surge a vontade de gritar, de fugir ou de simplesmente olhar nos olhos de quem nos feriu, a ponto de fazer sangrar a alma... A ponto de retomar cada pedaço que nos foi tirado. Mas, pensando claramente, não será valido... Não mudará nada.
Porém, nessas horas, exatamente nesse momento, quando a ação é totalmente por inércia, cuja alma não é possível sentir, aparece alguém que nunca imaginamos e nos surpreende de uma tal forma... Felicidade completa, jamais, uma vez que uma ferida sempre deixa marcas profundas. Porém, nos traz de volta à vida, nos faz perceber que ainda é possível sorrir, nem que seja por algumas horas.


Thais Yshida Cestari

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

E de repente, nada mais sentia...

Seu rosto não era mais tão convidativo, não me deixava com as pernas bambas, nem com as mãos trêmulas e frias, como se meu sangue não circulasse mais...
De repente, tudo o que eu via era um rosto estranho, duro, severo, capaz de me fazer ir embora definitivamente.
Seu perfume não era mais o que eu queria sentir... Meus ouvidos não suplicavam por aquela voz – tão doce e irresistível – que há alguns segundos atrás era a única coisa que me faria realmente bem.
Fitava-o como se procurasse alguma resposta... Alguma razão para aquela mistura de sensações.
Sua face não era mais aquela que me acalmava, que fazia com que o mundo parasse ao meu redor... Agora, sua face me amedrontava... Um certo receio de me aproximar, como se algo pudesse realmente me fazer mal ou me machucar de alguma forma... Uma sensação estranha, um sexto sentido fora do comum...
Não queria mais vê-lo... Não sentia mais a sua falta... Não o amava mais.
Tantas lágrimas... Talvez ele não merecesse nem, sequer, uma gota. Ou melhor, talvez aquele estranho que estava diante de mim não merecesse.
O rosto carinhoso e convidativo merecia. Ele me fez rir, me fez sentir aquele friozinho na barriga... Me fez viver aquela história que eu sempre quis que fosse minha, e foi.
Hoje, só ficaram lembranças de um tempo bom, com uma pessoa maravilhosa que não existe mais...
Ele me fez a garota mais feliz do mundo...
Não faz mais.

Jéssica Marcela.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Prazer de Morrer



São Paulo, 23 de Novembro de 2009
Poema-Piada / Temática: Morte

Em um caixão de madeira estrangeira,
Revestido em seda da melhor qualidade, me repousava.

Conseguia sentir o gosto do meu próprio sangue coagulando,
Que delícia!
Um gosto delirante.

Conseguia sentir o calor das pessoas ao meu redor,
Ouvia caindo no chão, lágrima quentes e salgadas,
Que sensação agradável!
Me sentia acomodado com a atenção das pessoas.

Sentia meus pulsos no calor das velas,
Até o cheiro de jasmim da coroa de flores eu apreciava naquela sala.
Aquele cheiro de carne;
Carne que começava a se decompor,
Me deixava encantado.

Sentia ao meu lado o perfume,
O perfume de todos aqueles falsos,
Com lágrimas teatrais,
Que nunca em mim haviam reparado;
E que agora encenam sobre meu corpo.

Após suportar todos aqueles atores,
Comecei a me sentir distante,
Sozinho.
Foi assim que percebi que a vida só começaria,
Para mim,
Agora.

Cesar A. Brito Cannizzaro

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vai ficar...





Talvez seja o último adeus
Talvez nossas vidas nunca mais se cruzem
Talvez a imagem de seu rosto, agora,
Seja a última que terei
Talvez a vida continue
E nem do rosto lembrarei...

Mas a lembrança
Ah, essa vai ficar
Risos, choros
Amores intensos
Que um dia tiveram fim
Assim como os rostos
Que serão esquecidos

Mas a lembrança
Ah, essa vai ficar
Amizades que, por mais que o tempo desgaste,
Sempre existirão
Porque foram intensas,
Intensas enquanto duraram
E nem uma vida inteira
Seria capaz de apagar

Talvez seja o último adeus,
Mas a lembrança
Ah, essa vai ficar...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Olavo


Para meu avô materno, Olavo.

Oi Vô. Tudo bem aí no lado bom da vida?! Vim expressar-lhe sentimentos meus.

Enquanto vivo a gente nunca brigou e sempre nos demos bem. O senhor morreu quando eu tinha 10, 11 anos, eu era uma criança, não tinha noção do tamanho da importância que teve essa morte. Passado alguns anos cai a ficha e eu choro pela sua perda. Choro pela saudade que tenho do senhor.

Lembro quando o senhor quebrou o braço jogando bola comigo, lembro quando o senhor dava halls pro nosso cachorro da época, lembro quando o senhor falava do espirro da minha vó que derrubava o cachorro que tava na esquina fazendo xixi no poste, lembro da gente montando as luzinhas de natal no nosso quintal, lembro de quando a gente brincava de forca ou de jogo da velha e você dizia que era o jogo da minha vó (velha), lembro das suas piadas, as mesmas piadas, e que eu sempre ria como se tivesse sido a primeira vez que havia ouvido, lembro de quando o senhor me deu um atari, lembro de quando a gente ia pra casa de Caconde (interior de Minas) e andavamos de bicicleta no quintal da casa e quando a gente ia nas fazendas vizinhas pegar laranja no pé ou ver as vacas e os bois.

Lembro quando o senhor adoeceu, lembro que de começo eram só uns surtos psicológicos, lembro quando a doença começou a ficar pior e o senhor começou a perder os movimentos básicos e caiu da escada, lembro que fui eu que vi o galo e o roxo na sua cabeça desse dia, lembro que, por conta disso, a gente teve que se mudar pra uma casa térrea ou um apartamento porque o senhor não conseguia mais andar.

Lembro quando o senhor teve que ser internado porque a situação estava muito difícil pra gente continuar a te deixar em casa, lembro que o senhor começou a fazer quimioterapia e vários exames. Lembro que o senhor teve que fazer uma cirurgia na cabeça e nesse dia minha vó estava em casa ouvindo a rádio que o Padre Marcelo apresentava, rezando. E a força foi tanta que o Padre conversou com ela. Lembro até das palavras dele:
"Tenho uma amiga Senhor, ela está com o marido muito mal no hospital agora, no meio de uma cirurgia séria, Senhor. Sim, Senhor. Claro, Senhor! Minha amiga, ele tá bem. Seu marido está bem e vai ficar bem. Ele vai sobreviver a essa cirurgia!"

Lembro que minha mãe evitava levar a gente no hospital para vê-lo por quê o senhor não lembrava de nada, nem de ninguém, não falava e não respondia a nenhum estímulo. E lembro que um dia eu fui visitá-lo no hospital. Lembro do hall do hospital, do corredor que levava até o seu quarto e lembro do seu quarto. Lembro que entrei no quarto, vi minha vó sentada num sofá acinzentado pequeno e baixo que ficava em baixo
da janela e ao lado do banheiro que era logo em frente a porta de entrada do quarto, vi a TV ligada na novela das 20h e minha tia embaixo dela, meu pai estava andando de lado a lado, as janelas estavam fechadas, meia luz acesa, aquela luz de brilho alaranjado. Não me lembro aonde estava o meu irmão, acho que meu irmão não tinha ido nesse dia.

Minha mãe disse: "Fala 'oi' pro vovô, filha". Era notável o tom de tristeza na voz da minha mãe. Eu disse 'oi'. O 'oi' mais empolgado que já dei na vida. Mesmo sendo criança, eu sabia o que tava acontecendo, só não entendia. Não entendia porque as vezes via minha vó ou minha tia chorando, não entendia porque minha mãe chegava tarde em casa, não entendia porque quando ia à casa da minha avó, meu avô não
estava e não entendia o motivo dele estar no hospital.

Com um 'oi' repleto de alegria infantil, cheio de saudade e um carinho na mão, eu olhei para você, olhei para seus olhos. Com os olhos arregalados, a boca aberta, testa franzida, sem cabelo, você retribui o olhar. Mas, vi uma expressão estranha, desconhecida. Senti um olhar distante e cheio de dúvidas. Quem é essa criança? Do que ela me chamou!? Vô!? O que é vô!? Quem são essas pessoas?! Da onde elas surgiram!?
O que eu to fazendo aqui!? O que é aqui!? QUEM SÃO VOCES?!? - O senhor só murmurava. E dormi com o seu murmúrio. Fui acordar em casa.

Essa é minha última imagem sua porque não fui no velório e nem no enterro. E essa foi a decisão da minha mãe, não levar nem amim nem meu irmão. Não sei se concordo com isso. Mas, ainda tenho suas fotos e lembranças na minha cabeça. Acho que isso me basta para seguir em frente e feliz. Saber que o senhor existiu, que fez minha felicidade enquanto criança, que me fez rir, me conforta. Mas nada impede a imaginação de como seria você aqui agora! Quando fiz meus 15 anos, meu primeiro namorado, quando me mudei de escola pela primeira vez, quando me mudei de casa, a morte dos nossos cachorros que o senhor tanto gostava, meu primeiro amor, meu piercing, meu show com minha banda, meus empregos, meu primeiro show, quando passei de ano sem nenhuma recuperação, quando entrei no ensino médio, quando fiz 18 anos, quando passei em duas faculdades, quando escolhi o que quero pra minha vida profissional! Queria ver como o senhor estaria agora! Será que o senhor estaria fazendo ginástica junto com a minha vó? Ou será que o senhor estaria trabalhando como sempre!?? O senhor nunca parava quieto! Como o senhor estaria hoje fisicamente!? Magrinho como sempre? Careca? Cabelos brancos?! De bengala!? Será que estaria fumando ainda?! Só imaginação.

E dessas imaginações eu vou vivendo e me conformando, infelizmente. Queria ter podido parar o tempo em todos os momentos em que estávamos juntos, só para poder ter mais lembranças suas a cada dia que passasse. São sete anos. Sete anos de saudade e 18 anos de amor!



Eu te amo muito, Vô!
(15/11/2009)



Luana A.